15 de julho de 2009

Comecemos, então, por uma coisa elevada


A minha querida Oriana fez esta coisa linda. Quis fazê-la e fez. Eu acho isso admirável. Vá, ide comprar um exemplar. Se amam a nossa língua, as nossas palavras, a nossa poética, ouçam o José, pela boca do Fernando.


Pronto, já que insistem

eu esqueço um bocadinho o face e volto a escrever no blogue. Vou só ali pensar em coisas inteligentes e elevadas para dizer e já venho.

24 de abril de 2009

Tu fazes falta, Zeca.

Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde uma canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta dar poder à malta
O que faz falta



Um verdadeiro manifesto contra a depressão.

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo



Sophia de Mello Breyner

21 de abril de 2009

O amor explicado às crianças

- Onde é que estão as paredes, as janelas e o tecto? Aqui não há casa nenhuma! – voltou ela a insistir.
- Mas há uma porta! – afirmou o meu pai, atravessando-a cheio de simpatia de um lado para o outro. – Se não houvesse, não podíamos entrar nem sair.
Parece-me que ele tinha razão, embora não se percebesse muito bem para que é que servia uma porta que dava para sítio nenhum.
Talvez fosse divertido entrar e sair, sair e entrar por uma porta tão invulgar e sozinha no meio de nada.
Isso era quanto lhe bastava. À minha mãe, não. Sentia-se perdida e ficou, de repente, muito triste.
O meu pai não a podia ver assim
- Uma porta é um começo. O resto arranja-se com facilidade.

in «A porta», de José Fanha, ilustrações de Mónica Cid, edições Gailivro (www.gailivro.pt)

(Só é preciso uma porta, minha querida, só isso.)

20 de abril de 2009

Só porque hoje é segunda-feira




Qualquer coisa, estou no Facebook, tá?

12 de abril de 2009

O tipo de quem Obama gosta

Lula da Silva. That's my man, I love this guy, disse o recém eleito presidente norte-americano, na abertura da cimeira do G20, em Londres. Falava do homem, político, sindicalista, força de poder, ex-torneiro mecânico que detém, actualmente, 80 por cento de popularidade no seu país, o grande Brasil com mais de 190 milhões de habitantes. Leio sobre Lula da Silva hoje na Pública e não consigo não ficar impressionada. Lula tem uma história pesada. Viveu com a mãe e os sete irmãos nas traseiras de um bar e aos 12 anos vendia bugigangas na rua. Foi operário. Tem a escola primária. Candidatou-se quatro vezes à presidência do Brasil. Perdeu das três primeiras.
Ganhou a cadeira do poder em 2002 e o povo viu nele um vento de renovação. Dizem que é profundamente inteligente. E que tem sentido de humor. A combinação perfeita, portanto. Leio, às gargalhadas, a história da "boca" de Fernando Henrique Cardoso, antecessor de Lula na presidência, antigo professor na Sorbonne, sobre políticos e canudos. Fernando Henrique Cardoso terá desdenhado e criticado os políticos incultos, que mal sabem falar português. Lula conhece mal os bancos da escola, toda a gente sabe. Um dia depois de ter ouvido o recadinho de Fernando Henrique Cardoso foi a uma escola pobre do Rio de Janeiro, pegou numa criança, esperou que as câmaras de televisão se voltassem para ele e disse, num sotaque nordestino: Estuda, meu filho, estuda, caso contrário você ainda vira presidente como eu.

Este homem, antigo operário e líder comunista, promotor de programas de combate à pobreza com nomes como Fome Zero, Bola Escola e Cesta Básica, que abraça Chávez e Obama, mas (digo eu) nada tem a ver com Chávez, vai agora emprestar dinheiro ao FMI.
Este homem, que já viveu nas traseiras de um bar, já disse que o petróleo que o Brasil agora descobriu não vai servir para queimar em combustíveis que só poluem, mas sim para tirar o povo da fome.
Este homem, que já liderou movimentos fervorosos anti-EUA, já bebe coca-cola.
Este homem, que não poderá recandidatar-se a um terceiro mandato, não vai alterar a constituição brasileira para permanecer no poder.

Lula da Silva. O homem de Obama.

9 de abril de 2009

Dizia eu que isto do amor

é lixado. A gente não percebe nada.

Às vezes gosta-se de alguém e é uma loucura. Depois tudo muda. E depois tudo volta a mudar outra vez. O bom a apagar o mau. Mas o mau, pá, o mau é tramado. Choramos, sofremos, morremos. Ficamos calados, olhos postos no nada, à espera que passe.
De vez em quando tentamos. Dizemos que estamos diferentes, que aprendemos com os erros do passado. De vez em quando é verdade. De vez em quando. Porque andamos sempre nisto. Muitas vezes. Too many lovers in one lifetime ain't good for you, lembro-me.

Um desencontro dos diabos. E diziam-nos que era simples. Aqueles malditos poetas. Nós sabemos lá. Nós pensávamos que íamos ter o mundo nas mãos. As coisas que nós íamos fazer, as viagens, os empregos. Os livros que nós íamos escrever. Os filmes que íamos realizar. As coisas importantes a que iríamos dedicar o nosso tempo. Os amores perfeitos que íamos viver. Porque isso do amor, vamos lá ver, ou se sente ou não se sente. Ou se gosta ou não se gosta. E quando se gosta, é todos os dias, a todas as horas, sem falhas, sem dúvidas, sem mancha. O dia-a-dia não nos destrói. Não a nós.

Diziam-nos que era simples. Aqueles malditos escritores de canções.

- Já não há relações,
desabafava-me uma amiga muito querida no outro dia, um dia depois de se separar do marido. Estava triste a minha amiga. É a terceira ou a quarta vez que sofre por amor.
- Mas desta vez é diferente.

E ouço o meu amigo H. dizer que não quer saber mais do amor, que está farto, que não percebe.
Eu também não percebo.
Mas depois penso numa tia minha, separada, mãe de um homem mais do que feito, que encontrou uma bela e serena paixão ali para os lados de Oeiras e está tão feliz que só quer ir para a pré-reforma, viver a vida e passear na marginal de mão dada com o seu novo homem. Ela, que já morreu de amor e outras coisas.
Não sei o que dizer à minha amiga e ao meu amigo. Talvez falar-lhes desta minha tia. Talvez ler-lhes um poema. É lixado, isto.
E, de repente, tudo muda. A gente sabe lá.

Coisas que se dizem numa redacção

«O meu filho é arraçado de urso.»

I know I can do it better, bitch!

Coisas que se dizem numa redacção

«Os pretinhos é que costumam pôr creme Nívea. Por isso é que têm a pele tão macia.»

3 de abril de 2009

31 de março de 2009

Coisas de mulher

Dona de uma imperfeição física e estética que, apesar dos pesares, e olhem que são muitos, não me vota, por enquanto, à galeria das mais medonhas, embora, desconfio, já pouco falte, eu acuso: os anúncios de produtos de combate à celulite e males semelhantes são irrealistas, mentirosos, forjados, trapaceiros, vigaristas e profundamente eficazes.

Coisas que se dizem numa redacção

«Ó T., não te podes drogar assim tanto!...»

“Actos hostis” não especificados, dizem eles

Jornalistas americanas detidas na Coreia do Norte.

30 de março de 2009

26 de março de 2009

Entretanto

vou só ali até Marraquexe e já venho.

Love is pain*

*em português: o amor é fodido

23 de março de 2009

Notas soltas sobre o fim-de-semana

Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah?






Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!

18 de março de 2009

A boa notícia

O Paulo Moura tem um blogue. Repórter à solta é o nome.

17 de março de 2009

Gran Torino

Um cinema para uma certa paz.

Kitchi, vem me pegar!

Caros dois, vá, três leitores do domingo à tarde: têm à vossa frente a recém auto-nomeada “justiceira de Campo de Ourique”. Intrépida, destemida e brava. Uma guerreira solitária e anónima, determinada a acabar com essa praga que é o estacionamento em cima das passadeiras. Mais precisamente em cima daquela parte rebaixada que permite ao desgraçado que anda numa cadeira de rodas aceder ao passeio protector. Luto também em nome dos peões donos de duas pernas andantes e viçosas e dos pais modernos, que já não passam sem o carrinho de bebé. Mas é o cidadão privado da sua mobilidade que me move. Nem é preciso explicar porquê, certo? Basta uma pessoa imaginar-se naquela situação, certo? Bem, digo eu.
Em Campo de Ourique, a falta de civismo, e até de solidariedade, espreita a cada passadeira. É verdade que há muitos carros e poucos lugares de estacionamento. O bairro não estava preparado para a abundância automóvel. De facto. Mas eu também moro lá e não estaciono em cima das passadeiras. Procuro melhor, escolho as horas em que saio e chego com a viatura, aparco longe de casa. Outros há que não pensam assim e eu acho mal. Ontem, por exemplo, tentava, por todos os meios, chegar a um passeio e não conseguia. Sujeita a ser trucidada por algum autocarro ou automobilista mais nervoso, lutava para ultrapassar aquela muralha de chapa e chegar, são e salva, ao passeio. Mas qual quê! Nem pela esquerda, nem pela direita. Era carro e mais carro e mais carro. E eu, que até sou elegante e esbelta e fininha (não sou, mas, pronto, é para vocês perceberem a ideia), não conseguia furar. É que não conseguia.
Deu-me cá uns nervos. Baixou em mim o espírito de implacável justiceira e, zás, pus um papelinho no pára-brisas. Com uns dizeres muito assertivos, a apelar à consciência do motorista. Pois que lhe perguntei como é que passaria ali acaso andasse eu numa cadeira de rodas. Pois que lhe disse que ele não era uma pessoa cívica. Toma que já almoçaste! Coisa que não se pode dizer do pobre esfomeado em cadeira de rodas que tenta chegar ao restaurante da esquina, se, per acaso, houvesse um pobre esfomeado em cadeiras de rodas a tentar passar por ali.

De maneiras que agora é assim. Carro em cima da passadeira? Papelinho no pára-brisas.
Isto ainda não é a selva, pessoas que têm automóveis e não querem procurar lugares válidos e legais para os estacionar. Não enquanto eu estiver por perto. Vá lá ver...