29 de janeiro de 2009

Um pneu furado pode ser o fim do mundo

E quem disser o contrário nunca se viu de noite, a chover, na Graça, sozinho, numa rua muito estreita, com um pneu furado. Num carro que não conhece e que – cereja das cerejas - tem um sistema de muda-pneus totalmente inimigo do condutor. Quem disser o contrário nunca se viu numa situação destas. E chovia. E eu estava de saia.

Pois, já me esquecia de dizer, sou mulher…

Mas começando pelo principio. Não sei se já vos disse, mas estava a chover. E eu andava pela Graça, esse paraíso de ruas largas e planas. A dada altura, o carro, que é muito inteligente, avisou-me de que havia um pneu furado, que levantasse o rabo do banco e o fosse trocar. Entrei em negação, claro está, e depois conformei-me. Primeira coisa a fazer: ligar ao Alex (controlando sempre as lágrimas). Não estava por perto. Segunda coisa a fazer: dizer muitas asneiras e deixar cair uma ou outra lágrima. Terceira coisa a fazer (mas que não fiz): ligar à mãe, pedir carinhos e desabafar porquê a mim, porquê a mim? Quarta coisa a fazer: ligar para a assistência em viagem. Que não podiam fazer nada, os furos não estão cobertos pelo seguro, «mas posso pôr o nosso técnico a falar consigo para lhe explicar como é que se faz», em último caso, «mandamos alguém, mas vai ter de pagar». Quinta coisa a fazer (depois de ir ao porta-bagagens tentar tirar o pneu sobresselente e ficar a olhar para o engenho que liberta o dito como um burro olha para um palácio – e burro, neste caso, não é uma palavra descabida): telefonar à Rosa. «Vou já ligar ao x e ao y. Não te preocupes, que tudo se resolve.» Sexta coisa a fazer: ficar à espera, sentir alívio, pensar com carinho na Rosa. Sétima coisa a fazer: perceber que o x e o y estão lá longe e que a assistência em viagem (que entretanto ficou de ligar) se esqueceu do nosso drama; ouvir a Rosa dizer «vou já ter contigo e levo o Pedro, ele é homem, ele sabe». Oitava coisa a fazer: ouvir uma música da Billie no carro e pensar não vou conseguir ver o 24. Nona coisa a fazer: ver o Pedro torcer o nariz perante aquele bonito espectáculo, «já tive um furo com este carro e foi uma chatice.» Décima coisa a fazer: perceber que o Pedro diz sempre a verdade. Décima primeira coisa a fazer: tentar, de todas as formas e feitios, tirar o puto do pneu furado do carro e perceber que tal não é possível porque a desgraçada da chave que faz não sei o quê aos parafusos está toda lixada, reparar que já é muito, mas mesmo muito tarde. Décima segunda coisa a fazer: telefonar outra vez para a assistência em viagem e implorar. Décima terceira coisa a fazer: ver o senhor do reboque chegar, sacar de um macaco hidráulico, de uma chave em cruz e de umas luvas, e mudar o pneu num fósforo. Décima quarta coisa a fazer: dizer-lhe que a chave não funcionava bem, tentar de todas as formas e feitios salvar a honra. Décima quinta coisa a fazer: ver o senhor do reboque a olhar para nós como se fôssemos uns betinhos que não gostam de sujar as mãos. Décima sexta coisa a fazer: tentar guardar o pneu furado e perceber que há engenheiros do ramo automóvel que devem ter tirado o curso nos Barbados. Décima sétima coisa a fazer: abraçar a Rosa e o Pedro e dizer-lhes que eles são mesmo à maneira.

Sim, já mudei pneus na vida. Não, não acho que seja impossível. Desde que não esteja sozinha. É tão simples como isso. Os pneus são pesados e os parafusos são difíceis de soltar, tá? E o próximo homem que me disser «pois, as mulheres…», digo-lhe «tu sabes mudar pneus, boa, pá, parabéns!, eu consigo fazer crescer um ser humano dentro de mim e pô-lo cá fora». Sem macaco.

Mas houve uma coisa mesmo boa no meio disto tudo. A Rosa (que tinha um avião para apanhar às sete da manhã) e o Pedro (que ficou todo sujo). Uns fixes. Não me vou esquecer.

P.S: Fazendo justiça ao Alex, que também é um miúdo catita: parece que ficou à espera que eu lhe respondesse a uma mensagem. Que iria ter comigo, mesmo vindo de longe, e «mudava-te isso num instante».

Há coincidências

Ele dá conta das manhãs, eu das tardes. Sempre ao domingo. Ele trabalha no andar de baixo, eu no de cima. Ele percebe de carros, eu de barrigas. Ele conhece sempre as músicas novas, eu nem por isso. Ele sabe o que é o Twitter, eu nem por isso. Ele gosta das manhãs, eu das tardes. Não somos muito originais a escolher nomes para blogues, mas é uma coincidência gira, mesmo gira.

28 de janeiro de 2009

Coisas que se dizem numa redacção

«Ainda no outro dia precisei de um útero e fui buscá-lo já não sei onde.»

Gosto da vida a preto e branco




Laura, de Otto Preminger, 1944, com Gene Tierney e Dana Andrews.

27 de janeiro de 2009

E então ele pegou na mão dela e disse desculpa. E ela fechou os olhos. O amor nunca morre. Chorou. Não disse nada. Podia enfim dormir.

Coisas que se dizem numa redacção

«Hoje posso dizer que o amo. Ele levou a filha ao médico.»

26 de janeiro de 2009

Xiiiiii! Do que eu me fui lembrar

D Day

É amanhã. O dia de ir lá àquele sítio. Que começa por um d, termina num a e tem uma broca no meio.

Acho que vou levar uma marreta. Olho por olho, dente por dente (!), minha amiga.

25 de janeiro de 2009

Coisas que descobri recentemente

Ao fim de uma semana, a sopa derramada no fogão transforma-se numa espécie de película aderente. Vendo bem as coisas, até é mais fácil de limpar.

Hey you rock n' rollers!

Coisas que não descobri recentemente

Uma boa pasta de azeitonas.

Gaza

«Hoje (contrariamente ao que acontece em certas sociedades primitivas) uma ética da guerra é uma aberração. Resta-nos denunciar os impasses a que nos condenam as grandes antinomias redutoras da História, construções ilusórias que levam às piores mortandades: "Se não és por Israel, és pelo Hamas terrorista"; "se não és pelo Hamas és por Israel que massacra inocentes". Recusamos tais impasses. Nem o Hamas terrorista nem o Israel da crueldade cega. Em nome da solidariedade entre o povo palestiniano e o povo israelita, já realizada em tantas experiências concretas, dizemos "não" às estruturas de poder que levam, numa lógica de espelhamento paranóico, às guerras mais absurdas e perversas.»

José Gil, na Visão desta semana. A filosofia salva.

24 de janeiro de 2009

Chora, se és homem

Por falar em Bryan Ferry




Jazzy, jazzy...

Bonita todos os dias




Luís, tens de aprender esta. Começa assim tell her I'll be waiting in the usual place... Lembra-me dos amores feridos, mas não faz mal.

23 de janeiro de 2009

Vicky Cristina não sei das quantas

É pá, não vou! Desculpem, mas não vou. NÃO VOU!

Duas horas a olhar para Penelope Cruz e para a Scarlet Johansson?! Tipo, não podia ser uma beldade, tinham de ser logo duas? Estas duas??
E eu ali, com os meus oculitos, a minha roupita, a minha pessoa, a olhar para elas? Era o que faltava. E elas disfarçam pouco, disfarçam. "Não sou nada um grande naco, pois não? E este olhar profundo? E este sorriso perfeito? E estes lábios? E este cabelo?"

Por amor da santa. Há limites. Uma pessoa depois tem de continuar a viver com a fronha que o Altíssimo lhe deu.

Coisas que se dizem numa redacção

«Está a dar a minha música favorita. Acende a luz!»

22 de janeiro de 2009

No hospital

Hospital de grandes dimensões, Lisboa, serviço de Obstetrícia. Um dia como outro qualquer. Uma estudante de medicina a cumprir a ronda, a aprender, a tirar notas, a ouvir os mestres, a ver se é nestas águas que quer navegar nos próximos 30 anos.

Médicas a percorrem os corredores. «Mas ninguém quer epidural?? Ando para aqui a vender isto e ninguém quer…», atira uma delas para o ar. Parturientes indecisas. Por enquanto, as dores estão mais ou menos controladas.
A médica a insistir: «Não quer mesmo a epidural? Olhe que eu já passei por isto, sei bem o que é.»
«Bem, a doutora é que sabe o que é melhor…», dirá a mulher em trabalho de parto.

Num dos monitores de CTG, surge um traçado estranho. Alguém nota e grita lá para o outro lado: «Ó Manel anda cá ver isto!». Ligada a este monitor está uma mulher em trabalho de parto. Está com dores. Agora ficou assustada. Pergunta o que se passa. Ninguém lhe responde. A estudante de medicina sente-se tentada a dizer à chefe que talvez fosse melhor falar com a mulher. Mas acaba por não dizer nada, não tem qualquer liberdade para o fazer. Não é ninguém ali, não pode dizer nada.

A mulher pergunta novamente. «O que é que se passa?» Dizem-lhe que tem de ir fazer uma ecografia. Para ir, é no piso de cima. «Depois dizemos-lhe o que se passa consigo, vá, vá.»
A mulher tem dores. Mas vai ao piso de cima. Sozinha. É então que começa a chorar.

Faz o exame, volta ao bloco de partos. Continua com dores, continua a chorar. Nada de grave se passa, mas ela continua a chorar. A estudante de medicina ganha coragem e diz à chefe que talvez fosse melhor falar com a mulher e explicar-lhe o que se passa com ela. A médica responsável pelo caso repara então que a parturiente chora. «Não fique assim, está a chorar porquê, há coisas bem piores, vá lá…».

Não sei se estas palavras terão consolado aquela mulher. Duvido. Dói-me só de a imaginar, sozinha num hospital, em trabalho de parto, a ir ao piso de cima fazer uma ecografia.

Isto aconteceu um dia destes num hospital de grandes dimensões, em Lisboa. Grandes dimensões, mesmo. Um hospital que salva vidas, que cura doenças graves, que faz transplantes, que faz milagres, maravilhosos milagres.

Mas que se esquece das mulheres.


P.S: Faltam três semanas para a estudante de medicina que relatou este episódio acabar o estágio no serviço de Obstetrícia. E ela mal pode esperar.

Amor messenger:

TRANSMISSÃO AMOR ATIVIDADE: Transmitir o amor, fazer o amor completo do world. Welcome a (site totó que os senhores querem divulgar) para dedicar o seu amor pela crise financeira mundial. Wish you no novo ano: rica e saudável, de prosperidade e forte.


O meu spam está a ficar, como classificá-lo?, fofinho.

21 de janeiro de 2009

Coisas que se dizem numa redacção

«Eu, quando curtia, era para namorar.»

«Agora gosto mais daqueles mais paradinhos, mas com muita acção lá dentro.» (referindo-se a, rufem os tambores, beijos)

Está tudo explicado II

Criação do ensino obrigatório
Portugal: 1772
França: 1802

Taxas de iliteracia em 1878
Portugal: 78%
França: 30%

Está tudo explicado

1967, França: Escolaridade obrigatória alarga-se até aos 16 anos (10º ano, mais coisa menos coisa).

1967, Portugal: Escolaridade obrigatória eleva-se da 4ª classe para o 6º ano.

20 de janeiro de 2009

No dia de Obama

Lembrei-me de Luther King. Teria feito 80 anos ontem.

«Se soubesse que o mundo acabaria amanhã, mesmo assim plantaria hoje uma árvore.»

Martin Luther King

O drama, o horror

Continuo, com todas as minhas forças, toda a minha alma, todo o meu ser, toda a minha essência, a odiar ir ao dentista. Pior: eu abomino ir ao dentista. O dentista é mau. O dentista faz doer. O dentista faz chorar. O dentista faz-nos fazer coisas tão estranhas como rezar. O dentista está ali, todo ufano, na sua cadeira, a perguntar: «está a doer?». Não, meu, isto sou eu com espasmos. E estas lágrimas que me escorrem pela cara abaixo são as poeiras do consultório, sou alérgica às poeiras.

O dentista tem maus dentes, porque, como é óbvio, o dentista não vai ao dentista, que ele sabe muito bem o que o espera.

Tinha consulta marcada para hoje. E ainda me custa falar disso.

Depois da sessão de tortura, tive de ir à farmácia, aviar a receita que o dentista passou. Ainda tremia, não conseguia falar por causa da anestesia (sim, fui anestesiada, que o dentista não é um talhante desumano, ele é bonzinho), um frio do cacete, as velhinhas felizes por irem comprar medicamentos à farmácia e eu a pensar por que raio dói tanto ir ao dentista. Estava ali, à espera, toda frágil, e começa a dar aquela música muito pirosa dos Europe, Caaarrie, e começo a sentir os olhos cheios de água. É um momento mesmo deprimente. E as velhinhas demoram-se muito.

A farmacêutica atende-me, dá-me os comprimidos, explica-me a toma e deseja-me as melhoras. Estava tão zonza que lhe respondi «igualmente».

E depois tive de ir levar o carro ao mecânico. Não sei porquê, desconfio que por ter sido sujeita a maus-tratos dentais, perdi-me no caminho e fui dar ao subúrbio de Alfragide, a uma zona cheia de prédios modernos - daqueles com aquecimento central e vídeo-porteiro, aposto - sem uma única coisa bonita à volta e a abarrotar de letreiros a dizer vende-se. É então que começa a chover e eu penso é o fim da macacada, fico-me já aqui numa choradeira desenfreada.

Entretanto, dou com o caminho, deixo a viatura no mecânico e vou a correr para o trabalho, que tenho muito que fazer e a vida não está para lamechices.

Mas, ó céus, daqui a oito dias tenho de lá voltar.

19 de janeiro de 2009

O marinheiro fez-se ao mar

Querido João,

Apenas para te agradecer aquela música maluca sempre a subir. Diverti-me muito nas festas da faculdade, com os meus amigos, a dançá-la. E essas coisas não se esquecem.

Coisas que se dizem numa redacção

«Eu acho-a feia.» (referindo-se a Angelina Jolie)

Ary




Morreu há 25 anos.

Israel e Palestina

«(...) a criação de Israel é um acto de ocupação e como tal terá de enfrentar para sempre a resistência dos ocupados; não haverá nunca paz, qualquer apaziguamento será sempre aparente, uma armadilha a ser desarmada (...)»

Boaventura de Sousa Santos, na Visão desta semana. Um texto duríssimo.

Sobre parto natural vs parto medicalizado

«Eu também quero o regresso à natureza. Mas esse regresso não significa voltar atrás, mas sim ir para a frente.»

Friedrich Nietzsche

Coisas que descobri recentemente

O saco de água quente foi uma grande invenção.

15 de janeiro de 2009

Sorriso de princesa

O Pedro fala-nos hoje do fim da Polaroid. Este ano termina a longa vida desta máquina de agarrar instantes. Nunca tive uma Polaroid. Já sou do tempo das máquinas fotográficas com flash incorporado, esse prodígio absoluto da técnica que o meu pai trazia lá de longe, do Oriente. Lembro-me de uma Pentax extraordinária que não chegava a enrolar, automaticamente, o rolo fotográfico, mas tinha um ar moderno verdadeiramente irresistível. O que eu usei aquela máquina. O que eu exibi aquela máquina.

Mas tenho um carinho especial pela Polaroid. Porque foi com esta máquina que eu descobri que nunca poderia ser uma princesa. Teria uns cinco anos. Estava em casa de uns familiares onde havia uma menina pequenina como eu. Acho que éramos primas. Também lá estavam o meu pai e a minha mãe. Os adultos conversavam, suponho, e as crianças brincavam, suponho também. Um dos tios, que tinha uma Polaroid, decidiu registar aquele momento para mais tarde recordar. E disso já me lembro muito bem. Porque era preciso preparar o ambiente certo para a foto. Organizar as pessoas – adultos em cima, crianças em baixo – dar um jeito aos cabelos, preparar o sorriso. Clic, a Polaroid deita a língua de fora e sai a fotografia.

É então que se dá o choque. Olho para a foto recém-nascida e percebo que ao meu lado estava uma linda princesa. A minha prima (ou coisa que o valha) tinha um sorriso perfeito, parecido com o das bonecas. Era delicado, bem desenhado, rosado, um pouco brilhante até. E a posição da cabeça e das mãozinhas? A cabeça tombou-a de lado, não muito, sempre na proporção correcta, as mãozitas colocou-as entre as pernitas, uma por cima da outra. Uma princesa.

E eu? Toda eu era um cabelo despenteado, umas jardineiras muito arrapazadas, um sorriso cheio de dentes e muito, muito horizontal. Foi isto que me desgostou. Eu queria ter um sorriso curvado, daqueles dos desenhos animados, igual ao da prima-princesa.

Bolei um plano. Pensei: se ela tem um sorriso assim, eu também posso ter. Basta curvar os lábios. Não sei se me consigo fazer entender. Pensava eu que bastava dar um jeito à boca para conseguir ter um sorriso perfeito, de boneca.

Tentei. Dei um jeito aos lábios e clic, vem a segunda fotografia. E o resultado é verdadeiramente assustador. Queria uma princesa, saiu-me um ogre. Dei um jeito aos lábios, é certo, mas acabei por torcer a boca toda e ficar parecida com um monstro a assustar criancinhas. Um susto, um autêntico susto.

A minha prima? Não comento.

Vem a terceira foto. E eu, que não era estúpida de todo, pensei: “está visto que não tens domínio sobre o teu próprio sorriso, mais vale imitares a posição.” E então pus a cabeça de lado, levemente, e encaixei as mãos entre os joelhos. Ensaiei o olhar mais doce deste mundo e clic.

Não estava mal, tirando aquele sorriso completamente horizontal. A outra estava mais princesa que nunca.

Lembro-me de tudo isto como se tivesse acontecido ontem. Graças às polaroids, que guardei com muito amor e carinho durante todos estes anos na devida sequência.

Obrigatório ver



Diz que o próprio Steinbeck achou que o filme superava o texto original.
As vinhas da ira, de John Ford. Amanhã, dia 16, às 21h30, na Cinemateca.



Im possible

Eu nunca, jamais, em toda a minha vida, nem que viva cem anos, nem que tire um mestrado em engenharia mecânica, um doutoramento em sistemas electrotécnicos, um MBA em informática, conseguirei perceber como funciona o ar condicionado dos carros da minha empresa. Não estão bem a ver. Se está desligado, não consigo ligar. Se está ligado, não consigo desligar. Se está muito quente, não consigo pôr mais frio. Se está muito frio, não consigo subir a temperatura. Se faz barulho, não consigo que deixe de o fazer. E eu tento. Carrego nos botões todos. No que diz AC, no que diz Auto, no que tem uma rodinha esquisita, no que tem umas pás tipo hélices que é preciso preencher (preencho e despreencho, ora um, ora outro), no que tem uma luzinha, no que tem um mais (+) e no que tem um menos (-). E nestum. Não liga, não desliga, não nada. Pá, só vos digo, é um stresse.

Coisas que descobri recentemente

A manteiga magra sabe a margarina.

14 de janeiro de 2009

Jayne e Aya

No Reino Unido, uma bebé nasceu dois dias depois de a mãe ter morrido. Jayne estava grávida de 25 semanas quando sentiu uma forte dor de cabeça e desmaiou. Poucas horas depois, no hospital, foi dada como morta. Havia sofrido uma grave hemorragia cerebral e não resistiu. Os médicos, porém, mantiveram-lhe o coração a bater por Aya, a filha pequenina que trazia na barriga. Mas há muito que o coração desta patinadora artística (Jayne foi campeã desta modalidade) batia aceleradamente por Aya.

Durante dois dias Aya viveu dentro do corpo da mãe que já não estava viva. Quando a retiraram, e mesmo antes de desligarem a máquina que soprava para dentro dos pulmões de Jayne, puseram-na no colo ainda quente da mãe. E não consigo pensar em nada mais bonito, mais comovente, mais humano. O Telegraph escreveu que a parteira teve este gesto para que mãe e filha pudessem viver, juntas, um momento precioso, aquele momento precioso do primeiro encontro, do primeiro cheiro. Único, insubstituível, privado. Só delas.

Respiro fundo.

Coisas que se dizem numa redacção

«Para mim, um homem de família é um homem que não é bêbado.»

«Teresa, morde-te!»

«Também tenho uma Nossa Senhora dentro dos joelhos.»

12 de janeiro de 2009

O dia em que nasci meu pai cantava
versos que inventam os pastores do monte
com palavras de lã fiada fina
cordeiro lírio neve tojo fonte

esta é uma velha história de família
para dizer como ele e eu chegámos
à raiz mais profunda do afecto
da qual nunca jamais nos separámos

nem Deus feito menino teve um pai
que o abraçasse e lhe cantasse assim
desde a primeira hora até ao fim

fui vê-lo ao hospital quando morria
olhos parados num sorriso leve
tojo cordeiro lírio fonte neve


Fernando Assis Pacheco

11 de janeiro de 2009

O milagre do nascimento

1983. O ano que os Monty Python pariram este delicioso scketch. 1983! Outro século, outra vida. E nós a passo de caracol, tão longe deles.

Genial. Autêntico serviço público.

A boa notícia




Ias gostar de saber.

9 de janeiro de 2009

Coisas que se dizem numa redacção

«Essa testa acaba.»

«O meu [cabelo] agora, para além de estar estúpido, não está mau.»

«O teu marido é um hamster e tu és um mapa.»

colega 1 a tentar dizer uma coisa à colega 2: «A taxa de cesarianas aumentou este ano.»

colega 2: «Estados Unidos o quê??»

«Orelhas de burro não chegam ao céu.»

8 de janeiro de 2009

Crónicas do carro novo

A Zé tem um carro novo. O outro deu o berro e ela teve de comprar um novo. Endividou-se até às orelhas, mas teve de ser. É a vida. Quando se tem uma família grande - mães, sogras, filhos, maridos, irmãos, cunhados - para transportar e se mora a 367 quilómetros do trabalho e a dita família não pára um segundo para contemplar o pôr-do-sol, não há nada a fazer. O carro morreu, viva o carro. Até aqui tudo bem. O problema é que a Zé é uma pessoa, como dizê-lo?, um pouco sentimental. Vai daí, sente coisas por objectos inanimados. Como os carros. Coisas fortes e intensas. Pela minha saudinha. Foi, por isso, bastante difícil despedir-se da viatura falecida. "Chorei muito", disse ela no dia da separação. "Falei com ele [com o carro] e disse-lhe que ia ter muitas saudades dele, mas que um dia ainda havíamos de nos reencontrar."
E pronto. A man has to what a man has to do. Mulher e máquina, cúmplices durante oito anos, separaram-se corajosamente, partindo cada uma rumo a uma nova vida.
Vem o carro novo. E ela: "Falei com ele [com o carro] e disse-lhe que ia aprender a gostar dele com o tempo. É como os namorados (??). Depois a minha sogra trouxe-me um saco vermelho com uns alhos."

Hein?

Isso mesmo. Um saco vermelho - "que ela tricotou" - com meia dúzia de dentes de alho. Para "afastar os maus-olhados". "Mas os alhos têm de ser meus, tenho de ser eu a comprá-los."

...

(Quatro pessoas a olhar para ela, em silêncio, esbugalhadas, atónitas, assombradas, boquiabertas, perplexas, abismadas.)

"Se, daqui a uns tempos, os alhos estiverem mirrados é porque alguém lançou um mau-olhado. Eu já vi alhos assim e aquilo assusta."

O que é que vos posso dizer acerca da Zé? Ela não é totalmente flipada. É mais para o emotiva. A Protecção de Menores nunca lhe tentou tirar os filhos, nem nada. Apesar dos alhos no saco vermelho. Até agora tem corrido tudo bem.

7 de janeiro de 2009

Os filhos, pá, os filhos

(Via Mi.)

AH! AH! AH! AH!, é só o que eu vos digo. Mas AH! AH! AH! mesmo. E guchibuchi ao mesmo tempo.




6 de janeiro de 2009

Boas razões para fazer um filho

Sónia, sei de uma tão boa como essa.

Rititi, diz que isto também dá uma grande trip.

Era uma vez uma filha muito doce, aí dos seus sete ou oito anos. E uma mãe muito mãe. Mesmo mãe. Daquelas sempre meigas, sempre pacientes. Eram as duas muito doces, pronto. Não conseguiam evitar. Esta filha perdia-se muitas vezes a olhar para esta mãe. Dizia-lhe coisas como és bonita, és a mais bonita de todas. Um dia disse-lhe a coisa mais deliciosa deste mundo. Disse-lhe: Mãe, gostava tanto que fosses da minha idade. De certeza que éramos as melhores amigas.

Se não for para viver momentos destes, sentir uns amores arrebatados assim, não sei para que é que cá andamos.

"Só os funcionários acham que quem não concorda com eles é do partido rival."

Crónica de Alexandra Lucas Coelho, no Público. Aqui. Sobre Israel e a guerra. E toda aquela insanidade.

5 de janeiro de 2009

"You love your life, we love our death"

Panorama BBC.

Paquistão, terra a ferro e fogo, cada vez mais destino de jovens britânicos, filhos de emigrantes, à procura das suas raízes. Pergunto-me acerca dessas raízes. Detenho-me numa frase poderosa, difícil, terrível: "You fight to live, we fight to die".


4 de janeiro de 2009

Israel e Palestina

Palavras de Amos Oz, escritor, israelita, um dos fundadores da organização pacifista Schalom Achschaw (Paz Agora):

"Vai haver muita pressão sobre Israel pedindo-lhe contenção. Mas não vai haver nenhuma pressão sobre o Hamas, porque não existe ninguém para os pressionar. Israel é um país; o Hamas é um gangue. Os cálculos do Hamas são simples, cínicos e pérfidos: se morrerem israelitas inocentes, isso é bom; se morrerem palestinianos inocentes, é ainda melhor. Israel deve agir sabiamente contra esta posição e não responder irreflectidamente, no calor da acção."

Dá-me vontade de chorar esta guerra.

3 de janeiro de 2009

E diz Silvio

A revolução cubana fez 50 anos. Há quem a recorde como uma festa bonita. Aqui, pouco sabemos do que aconteceu por lá. Houve quem acreditasse no romantismo. Mas a vida não está para romances.

Sobrou esta canção linda.

Viva a liberdade. Com todas as letras. É só isto que eu sei.


E quem diz Sabina, diz Serrat

Sabina & Serrat

Hoje lembrei-me de Sabina

(não aconselhado a melancólicos)

Gracias, O.


2009 III


(...)

Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.

(...)

Eugénio de Andrade

2009 II

Desejos para 2009. Eu, às passas, nem bem as vi. Enfiei-as na boca, qual ben-u-ron, e já está. Os desejos, os desejos!, gritavam-me os amigos. Um por cada badalada. E eu, meia zonza, à pressa, antes que o minuto um acabasse, a pensar em desejos. Doze, têm de ser doze. Chiça. Saem doze desejos para a mesa do canto. Nem deu tempo para brindar. A minha sorte é a Mi. "Pensei num desejo muito bom para ti." Uf, obrigada.

Desejos há muitos. Agora que já passou o furor da contagem decrescente, das passas, dos abraços, dos beijinhos, mais abraços, mais beijos, e rezando às alminhas para que ainda conte, aqui ficam os doze indomáveis desejos para 2009.

1) Saúde. (É cliché? Que se dane. Caríssimos, a saúde é do melhor que há. Tenho por ela a maior das admirações e, por isso, desejo-a. Desejo-a muito. Para mim e para os que amo.)

2) Dias mais quentes para a minha avó.

3) Gargalhadas para o meu tio Luís.

4) Estabilidade financeira. (Também é cliché? Não é profundo? Está bem, abelha.)

5) Tardes de luz e livros para mim.

6) Mistérios amorosos. (Para mim e para os meus mais queridos.)

7) Soluções amorosas. (Idem.)

8) Tempo para ir ao cinema e ao teatro e ao jardim com os meus sete magníficos primos. (Ou oito, que isto nunca se sabe. A produção de infantes naquela casa é qualquer coisa digna de se ver.)

9) Tempo para abraçar cada vez mais os meus amigos e dizer-lhes que, sem eles, isto não tinha graça nenhuma.

10) Que os Arcade Fire venham ao Coliseu. (Vá lá, vá lá.)

11) Que a minha mãe deixe de fumar.

12) Paz. (No mundo e dentro de mim.)

2009

Parece-me um bom ano para começar um blogue.

Bem-vindos.